00:00
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00:19
O ano de 1965 está a terminar e Raymond Candot vai regressar a casa, na Suíça.
00:25
Sem a mulher.
00:28
O diplomata já sabia que no fim do ano iria terminar a missão em Havana e rumar a Berna para outro desafio.
00:34
Mas os acontecimentos mais recentes apressaram tudo.
00:38
Com a mulher ainda desaparecida, Raymond recebe ordens para sair de Cuba o mais rápido possível.
00:45
Tem documentos secretos a passar-lhe nas mãos todos os dias. E com o estranho desaparecimento de Ania, nem os suíços nem os norte-americanos estão confortáveis com a presença dele em Havana.
00:58
Raymond nunca confiou em Ania 100%.
01:02
Há de dizer que nem a missão de deixar uma carta no correio lhe daria.
01:07
Quanto mais permitir-lhe ter acesso a dados da embaixada.
01:10
Isso nunca passou pela cabeça do diplomata.
01:13
Mas não é fácil que todos acreditem nessa versão.
01:17
Seja como for, Raymond vai mesmo deixar Cuba.
01:21
Mas antes de regressar à Suíça, ainda tem outra coisa a fazer.
01:26
Venha o avião em Havana, com destino a Nova Iorque.
01:29
Faz uma escala de dois dias nos Estados Unidos.
01:33
E a 23 de dezembro de 1965, aterra em Lisboa, no aeroporto da Portela.
01:45
O sogro e diretor da polícia política, Silva Paes, já tinha conhecimento da chegada de Raymond.
01:54
No momento em que se prepara para passar no controle de passaportes, o suíço é abordado por um agente da PIDE.
02:01
Raymond entra no carro. O destino é a rua de Moçambique, a casa dos sogros.
02:13
O diplomata suíço foi mantendo os pais de Ani a par de tudo o que se estava a passar, do pouco que foi sabendo.
02:21
Por isso não tem grandes novidades para contar sobre o desaparecimento.
02:25
Mas quero comunicar-lhes uma decisão.
02:28
Vai pedir o divórcio.
02:34
Raymond sempre foi recebido como um filho na casa dos sogros.
02:39
É um homem bem parecido, educado e com uma boa posição.
02:43
Que ainda para mais, não suporta comunistas.
02:49
Depois de várias relações falhadas, sempre sem a benção da mãe, o diplomata suíço era tudo o que os pais sonhavam para a Ani, diz Madalena Anitta Palhota.
02:59
Armanda Palhota, a mãe de Ani, que Raymond trata carinhosamente como Dona Anitta, suplica ao genro que não se separe.
03:09
Não vê futuro para a filha como divorciada.
03:12
Já para não falar na reputação da família, não aceita.
03:16
Implora.
03:18
vê a decisão de Raymond como uma afronta pessoal.
03:23
Quando ela desaparece, eu acho que na altura estavam angustiados. Não eram zangados, estavam angustiados. Não sabiam o que é que se passava, o que é que se estava a passar.
03:37
Ao pai faltam-lhe palavras.
03:40
Fernando Silva Paz não quer acreditar. Está destruído.
03:44
Nunca imaginou ter de passar por isto.
03:47
O Genro está a anunciar-lhe o divórcio numa altura em que o diretor da PIDE não tem notícias da filha há dois meses.
03:57
Não sabe se ela está viva ou morta.
04:01
Dentro de poucos dias, vai finalmente saber.
04:29
A carta que chega à casa dos pais de Ani, na rua de Moçambique, é curta.
04:34
Mas pelo menos sossega Armanda e Fernando Silva Pais em relação a um dos maiores medos que tinham.
04:41
A filha está bem.
04:46
A Ani deixa claro que não está a ser coagida.
04:51
É uma mulher livre.
04:55
Garante que ninguém a está a maltratar ou obrigar a fazer nada.
04:59
E não se alonga mais.
05:02
Não diz onde está, nem quando ou se vai voltar. Aos poucos as dúvidas começam a dissipar-se.
05:13
Por muito que não revele a localização, há cada vez mais sinais de que a Ani está mesmo em Cuba.
05:22
E se está em Cuba, só pode estar a ser protegida pelo regime de Fidel Castro.
05:30
Resta saber porquê.
05:50
Os Escândalos de uma Revolucionária é uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Bárbara Branco, com banda sonora original de Franky Chaves. Episódio 2 Deslumbrada por Che Guevara
06:18
Algumas histórias só acontecem porque alguém decidiu ir além.
06:22
Além do esperado, além do conhecido, além dos limites. E aí começa tudo o que ainda não conhecemos. Gama elétrica Kia. Elétricos sem limites.
06:33
Kia.
06:33
Movement that inspires.
06:44
Fernando Silva Paz é escolhido por António de Oliveira Salazar e nomeado diretor da PIDE a 6 de abril de 1962. O historiador Duncan Simpson, investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, com trabalhos sobre a PIDE, diz que há duas grandes razões para Salazar ter escolhido Silva Paz para chefiar a polícia política.
07:07
A lealdade e um perfil discreto.
07:12
O facto de Salazar querer ter uma mão cada vez mais forte, mais controladora na PIDE, este perfil de uma pessoa ligada a trabalhos mais administrativos do que... do que um militar no ativo, por exemplo.
07:33
Naquele tempo, o Silva Paes já tinha passado na reserva.
07:38
Combinando isso com o facto do Silva Paes ser mesmo um devoto incrivelmente fervoroso do Salazar e talvez menos propenso a criar-lhe problemas de tentar afirmar a sua autoridade de maneira demasiado forte
08:01
A devoção que Silva Paes tem por Salazar faz com que se torne rapidamente um homem da confiança do presidente do Conselho.
08:08
Ao longo dos anos de trabalho, das reuniões semanais e de casos muito complexos, como o da morte de Humberto Delgado, os dois tornam-se mais próximos. Salazar foi tendo um papel cada vez mais direto na ação da PIDE ao longo dos anos.
08:23
Mas Silva Paes era tão dedicado e fiel que não via nisso um problema.
08:29
Ainda que Silva Paes formalmente reporta ao Ministro do Interior, a verdade é que há uma comunicação direta entre ambos.
08:37
O diretor da PIDE informa o ditador sobre prisões de adversários do regime, sobre ações do PCP e também sobre a atividade dos movimentos independentistas em Angola, Moçambique e Guiné.
08:49
Em 1965, Silva Paz envia a Salazar vários relatórios sobre a Conferência Tricontinental, que vai juntar representantes de países da América Latina, Ásia e África, incluindo dirigentes dos movimentos de libertação que atuam nas colónias portuguesas.
09:07
Essa reunião vai acontecer em Havana, onde vive a filha do diretor da PIDE.
09:31
Quando Silva Paz é nomeado diretor da PIDE, em 1962, Ani e Raymond já estavam casados há dois anos.
09:38
O diplomata suíço chega a Portugal em abril de 1959.
09:43
Tem 36 anos.
09:45
Faz a viagem de carro e entra pela fronteira de Vilar Formoso.
09:50
Conhece bem a língua, porque viveu cinco anos no Brasil.
09:54
Mas não encontra em Portugal o calor e o ambiente de festa que o surpreendeu do outro lado do Atlântico.
10:01
É tudo muito triste. Recorderá quatro décadas mais tarde José Pedro Castanheira e Valdemar Cruz, autores do livro A Filha Rebelde, sobre a vida de Anís Silva Paz.
10:11
Descreve Portugal como um país fechado de pessoas fechadas, em que as pessoas se vestiam de preto e viviam na mentalidade de Salazar, para quem bastava haver batatas e bacalhau.
10:24
Raymond Candô arrenda um apartamento na Baixa de Lisboa. Passa os dias entre a casa, a embaixada e os passeios pela capital.
10:32
É solteiro. E sente-se sozinho.
10:43
Procura a redação do Diário de Notícias.
10:47
O edifício é grande e dá-nas vistas.
10:51
Enche-se de coragem e dirige-se à zona dos anúncios.
10:59
O diplomata quer publicar um que diga. Cavalheiro deseja conhecer senhora para excursões, piqueniques e campismo.
11:08
O funcionário do DN acha o anúncio esticado.
11:12
Impossível de publicar. Sugere algo mais sóbrio como Cavalheiro estrangeiro deseja conhecer senhora para falar português.
11:22
As respostas chegam devagar, quase sempre com recusas quando se coloca a hipótese de um encontro cara a cara.
11:31
Há uma mulher francesa que aceita conhecer Raymond.
11:35
Mas não dá em nada.
11:38
Ou melhor, parece que não vai dar em nada.
11:42
Mas é o início de tudo.
11:48
A mulher francesa diz que tem uma amiga muito livre, que gosta de falar francês, é simpática e tem uns olhos bonitos.
11:57
A história de amor de Annie Silva Pays e Raymond Candot é uma operação relâmpago.
12:01
Conhecem-se, apaixonam-se e namoram durante poucos meses.
12:06
Têm o primeiro encontro em julho e em outubro estão a caminho da Suíça para se casarem.
12:13
A prima Madalena não vai ao casamento.
12:16
O pai e a mãe são as únicas pessoas da família da noiva a assistir à cerimónia.
12:21
Era um pacato, era uma pessoa normal.
12:26
Ela era uma mulher alegre e ele era uma pessoa mais... Ele tinha mais a ver com o meu tio. Era uma pessoa muito virada para o trabalho, com uma carreira para sustentar, uma carreira para progredir, que conheceu uma mulher bonita, porque se apaixonou, que era ideal para o cargo dele, devido a um ambiente com o qual ele se identificava, não é? Sim, eu acho que sim, que ele estava apaixonado por ela.
12:57
Armanda e Fernando Silva Pais fazem a viagem de carro.
13:02
É longa e cansativa.
13:04
Passam por uma violenta tempestade em França, mas finalmente chegam à Suíça para casar a filha.
13:10
A boda é num restaurante e a mãe oferece dois pratos em prata aos recém-casados.
13:16
Quando regressa à Lisboa, o casal instala-se num apartamento no bairro Alto.
13:20
É lá que estão a viver quando, dois anos mais tarde, chega uma notícia da Suíça.
13:26
Raymond foi escolhido para uma missão diplomática em Havana.
13:33
Anífica Radiante. Trabalhou numa livraria e é apaixonada por livros.
13:39
Lê Hemingway, que escolheu o país para viver. Sabe que Simone de Beauvoir e Jean Paul Sartre estiveram na ilha com Fidel Castro e Che Guevara e que escreveram maravilhas sobre a vida em Havana?
13:50
Já à distância está apaixonada por toda a atmosfera que se vive em Cuba no pós-revolução.
13:55
Eu acho que ela estava deslumbrada. Casar com um diplomata é sempre uma maneira de sair do nosso país e do nosso ambiente.
14:04
Lembro-me de ir ao aeroporto e despedir-me deles. Isso eu lembro-me. Eu lembro-me de estar numa sala VIP toda da XPTO, por causa do meu tio, não é? Parecia-me bem, parecia contente.
14:44
Annie e Raymond só estão em Cuba há quatro dias, quando a ilha é colocada no centro daquele que foi o momento mais perigoso da Guerra Fria. 16 de outubro de 1962. São 8h45 em Washington, quando o presidente John F. Kennedy é informado da descoberta.
15:02
Um avião espião sobrevoou Cuba e captou imagens alarmantes.
15:07
Os Estados Unidos tinham agora a prova de que a União Soviética estava a instalar mísseis nucleares apontados para o território norte-americano.
15:15
Os Estados Unidos estudam a possibilidade de bombardear as bases de mísseis em Cuba e até de invadir a ilha.
15:23
Teme-se que um ataque norte-americano possa desencadear uma resposta soviética, principalmente na Europa.
15:32
Ou pior, uma guerra nuclear.
15:37
Os Estados Unidos podem estar prontos para um ataque em poucos dias e para uma invasão numa semana.
15:44
A 20 de outubro, oito dias depois de Annie e Raymond se instalarem em Havana, Kennedy faz um discurso em que revela que o mundo tem estado à beira de uma guerra nuclear.
16:08
Raymond Kandot, que é o diplomata suíço responsável por descodificar mensagens secretas, assiste a tudo com preocupação.
16:15
Sobretudo porque em Cuba não existe embaixada dos Estados Unidos.
16:20
A Suíça é a representante dos interesses norte-americanos na ilha. 40 anos mais tarde, em entrevista aos autores do livro A Filha Rebelde, Raymond Kandot vai admitir que foram momentos muito tensos.
16:37
Depois do anúncio do presidente americano, Cuba fica sem comunicações com o exterior.
16:43
Durante três dias, o país está completamente isolado do mundo. Raymond e Annie nem sequer podem avisar as famílias de que estão bem.
16:54
Os espaços aéreo e marítimo estão bloqueados e o povo manifesta-se nas ruas.
17:00
Os cubanos não querem uma cedência da União Soviética de Nikita Khrushchev aos Estados Unidos. Estão contra a retirada dos mísseis de Cuba. Nas ruas de Havana há gritos de ordem.
17:30
O casal conhece os recantos de Havana, faz amizades e é convidado para festas, algumas delas em embaixadas.
17:38
Dentro de pouco tempo, Annie vai estar tão à vontade que também começa a convidar os amigos, muitos deles ligados à Revolução Cubana, para visitarem em casa. Fala muito bem francês e espanhol. Isso facilita a integração, tanto com cubanos como com estrangeiros, sobretudo embaixadores e embaixatrizes. E claro, é portuguesa.
17:59
coisa que não é assim tão comum em Cuba.
18:02
Por isso, rapidamente, começa também a ser recebida pelo encarregado de negócios, Luís Gonzaga Ferreira, e pela mulher, Milu, de quem se torna muito amiga.
18:11
Ela era recebida na embaixada, eles estavam naqueles círculos diplomáticos que têm sempre um certo... tem outro tipo de tratamento, não é?
18:23
E depois deve ter achado piada à Revolução Cubana, porque se calhar eu na idade dela também acharia.
18:29
Os primeiros tempos são felizes. O casal envia cartas e fotografias à família que mostram isso mesmo, diz Madalena Palhota. A prima ainda hoje guarda uma fotografia a preto e branco, em que Ani e Remo, cada um com um cão ao colo, aparecem sorridentes.
18:46
Sim, ela só falava em festas, recepções na embaixada, festas na embaixada. Portanto, parecia estar bem.
19:04
Ani e Raymond estão em Havana há pouco tempo, quando decidem ir assistir a um discurso de Che Guevara.
19:09
O diplomata suíço não esperava tanto entusiasmo por parte da mulher.
19:15
Não que seja a única.
19:17
Na verdade, Raymond recorda um batalhão de mulheres deslumbradas pelo ícone da Revolução Cubana.
19:23
Mas começa a prestar especial atenção à Annie.
19:31
Um dia, o casal Candó é convidado para uma recepção no Banco Nacional de Cuba.
19:37
Che Guevara também está presente. É nessa ocasião que são apresentados.
19:43
Raymond repara que Che Guevara e Ani falam longamente.
19:47
Não sabe sobre o quê, mas vê a mulher entusiasmada.
19:51
Noutra altura, viu-a a conversar com Fidel Castro e havia interesse e dedicação à conversa, mas não era a mesma coisa.
19:58
Che Guevara parece especial aos olhos de Ani.
20:02
E até o marido dá por isso.
20:05
Em casa já se tinha percebido que a mulher tinha uma devoção particular pelo ícone da Revolução Cubana.
20:12
Mas a partir desse dia, muda muita coisa.
20:16
Annie começa a imitar Che Guevara.
20:19
Até fisicamente.
20:21
Passa a usar o cabelo o mais parecido possível com o do comandante.
20:26
Raymond não gosta. Vai revelar em entrevista para o livro A Filha Rebelde.
20:31
Olha para aquela veneração como um culto doentio.
20:35
Acredita que aquele comportamento, ainda para mais numa mulher casada, é decrépito. Muito próximo da senilidade.
20:43
Sente que tudo aquilo é insuportável.
20:46
Começa a ficar sem paciência para a mulher que está deslumbrada com a Revolução Cubana. A Ani não quer saber da opinião do marido.
21:00
Está feliz e a viver uma vida de sonho cada vez mais integrada na sociedade de Havana.
21:06
Aos poucos há cubanos fardados a entrarem na Embaixada da Suíça para irem ter com ela Um deles é René Vallejo, secretário e médico de Fidel Castro.
21:19
Outros são José Abrantes Fernandes, membro da Polícia Política do Regime, e até o chefe de protocolo, Roberto Melendez.
21:27
Che Guevara não é visita de Ani.
21:31
Mas há quem alimenta a ideia de que existe algo mais entre eles.
21:36
Não apenas uma grande admiração.
21:46
Esta noite a festa é na Embaixada da Holanda.
21:50
Juntam-se diplomatas de vários países. É um hábito haver receções deste género.
21:56
Os convidados são quase sempre os mesmos. Só rodam os anfitriões.
22:00
O embaixador, um conservador do norte da Europa, não gosta da Revolução Cubana nem dos ritmos de festa entre embaixadas.
22:08
Mas a mulher dele organizou tudo.
22:12
Naquele dia, para desgosto do diplomata, Che Guevara, que não é dos convidados mais assíduos, aparece mesmo. Vem atrasado e com as botas cheias de lama.
22:30
Nesse momento, Raymond está na casa de banho.
22:34
Quando sai, tem a sensação de que está noutra festa.
22:37
Toda a gente está à volta de Che Guevara.
22:41
Toda a gente quer falar com Che Guevara. O ícone da Revolução Cubana aproxima-se de Ani. Trocam poucas palavras.
22:53
Ele elogia-lhe o vestido. Na verdade, não é só um elogio. É um memorável elogio de Che Guevara a um vestido de renda vermelho, mangas curtas e de cote pronunciado.
23:12
Este momento vai mudar a vida de Ani para sempre.
23:16
Quem o diz é Maria Carla Baceggio, amiga e confidente de Ani.
23:21
Nora de Raul Roa Garcia, destacado membro da Revolução e, nesta altura, Ministro dos Negócios Estrangeiros, de Cuba.
23:31
Anos mais tarde, conta aos jornalistas José Pedro Castanheira e Valdemar Cruz, que aquele momento abalou profundamente a amiga.
23:39
Aquele vestido nunca mais voltou a sair do armário.
23:43
Mas a história entre Ani e Xé nunca foi além de uma paixão platónica.
23:48
Nunca aconteceu nada entre eles, garante.
23:52
Rui Ferreira, jornalista e amigo de Ani, diz o mesmo.
23:57
Eu acho que é muito fantasiosa. Essa história dela com o Xé, desde que ela se separou do marido, o Xé já estava fora de Cuba. Estava em África. E eu nunca ouvi ela falar...
24:13
de que teve uma relação com o Che.
24:16
Meli López tem outra versão.
24:19
Durante a ditadura de Fulgencio Batista foi costureira da primeira dama.
24:23
Agora trabalha como mudista para as mulheres dos diplomatas que vivem em Cuba.
24:28
Também é amiga de Ani.
24:30
E diz que entre ela e Che houve sim alguma coisa.
24:35
Tiveram... uma chispa.
24:38
Mas foi tudo muito discreto porque os dois eram casados e aquilo era um amor impossível e imortal.
24:46
Alfredo Duarte Costa nunca chegou a conhecer a Ani, mas ocupou o posto de embaixador português em Havana e tornou-se amigo de Aleida e Célia, as filhas de Che Guevara.
24:56
Elas ouviram a história também, embora nunca tenham conhecido a Ani, e disseram que é absolutamente falso, que o pai nunca teve uma relação com ela. Encontraram-se duas ou três vezes em eventos sociais, a coquetes, nas embaixadas, etc. E a Leida Guevara, a filha, até me contou, disse-me que o meu pai era tão fiel, tão fiel à minha mãe, que era impossível.
25:19
O diplomata português, que esteve em Cuba entre 1999 e 2004, conta que para comprovar a fidelidade do pai, a Leida Guevara chegou a mostrar-lhe uma carta dele para a mãe.
25:30
Ele dizia nessa carta enviada da Argélia, estou completamente apaixonado por ti e certeei sempre fidel, mas queria-te confessar, porque em pensamento hoje... Fui-te infiel várias vezes. É que há aqui umas mouras, era uma dargelina, com uns olhos negros grandes, que me tentaram, mas foi só no em pensamento. Portanto, ele era um homem muito estrito nessas coisas. Música
26:05
Apesar da simpatia cada vez mais assumida pelo regime, a vida que a Ani leva em Havana, a morar na Embaixada da Suíça, é pouco condizente com os rigores impostos pela Revolução Cubana.
26:18
Era muito agradável porque havia lojas em dólares e nós podíamos, tínhamos acesso a todos os bens, mariscos, vinhos, espumantes, tínhamos tudo, mas era pago em dólares e os rumanos obviamente não tinham dinheiro para ir a essas lojas onde se pagavam em devisas estrangeiras.
26:36
Tem uma vida de luxo. Não precisa de se preocupar com dinheiro.
26:40
Pode alimentar relações de amizade, estudar a revolução, conhecer pessoas e sentir o ambiente de festa que se vive em Cuba.
26:48
Toda a gente me disse, como eu, que estavam fascinados como é que aquela senhora acaba em Cuba. E toda a gente me dizia que era uma mulher extremamente bonita, muito bonita. Entrava em qualquer lado, todos os homens olhavam para ela.
27:02
Está tudo a correr bem, Ani.
27:05
Tudo tirando o casamento. A vida social vai se tornando mais intensa, ao mesmo tempo que a relação com o Raymond se deteriora.
27:15
Estão casados há quase cinco anos e a viver em Cuba há praticamente três.
27:20
Nos últimos tempos, a convivência em casal é cada vez mais difícil.
27:26
Discutem muito.
27:28
Nem sempre no recato da chancelaria onde moram.
27:32
A viagem para o México surge como uma solução.
27:36
Uma pausa para tentarem melhorar a vida em comum.
27:39
Annie precisa de férias.
27:47
A ideia, explicará Raymond 40 anos depois, era passar 15 dias na capital do país com a amiga Laura Bosques.
27:54
Tinham-se conhecido em Havana porque o pai, Gilberto Bosques, foi embaixador do México na cidade.
28:01
Como a Casa dos Bosques está em obras, Ani fica instalada num hotel.
28:06
As duas amigas passam praticamente todo o tempo juntas.
28:11
Passeiam, vão ao cinema, assistem a tertúlias de escritores e pintores e até têm tempo para uma visita às pirâmides de Teotihuacán, na cidade do México.
28:23
Porém, aquela que Raymond achava que ia ser uma viagem para tentar melhorar o casamento dele com Ani
28:30
Foi tudo menos isso.
28:35
O amigo Rui Ferreira não tem dúvidas de que já havia um plano no momento em que a portuguesa deixou Havana e rumou ao México.
28:42
Foi tudo preparado até ao mais ínfimo pormenor.
28:46
A viagem ao México e o regresso é o que se chama, em termos de subvenções, uma desfiltração.
28:53
Ela foi, talvez a amiga dela mexicana não saiba, para criar uma separação com o marido.
29:32
Mente-o-lhe. Faltam poucos dias para o início da conferência tricontinental em Havana, quando o encarregado de negócios de Portugal em Cuba recebe a informação de que Rogélio Montenegro, diretor político do Ministério das Relações Exteriores de Cuba, quer marcar uma conversa. Não é a primeira vez que acontece. Os dois homens conhecem-se bem e mantêm relações cordiais.
30:04
Mas o habitual, quando se reúnem, é Luís Gonzaga Ferreira ter de se deslocar ao Ministério.
30:10
Desta vez, o governante cubano sugere outro local para se encontrarem. Escolhe um território neutro.
30:20
Esta não é só mais uma conversa.
30:24
Rogélio Montenegro tem uma mensagem para lhe entregar e vem diretamente da parte de Fidel Castro. O comandante manda dizer que o caso não vai ser utilizado na Conferência Tricontinental.
30:42
Não chega a dizer o nome dela, mas é óbvio. O caso é o desaparecimento de Ani Silva Paz.
30:52
o próprio Fidel achou que deveria tranquilizar os portugueses.
30:58
Estão inquietos há semanas com a possibilidade de a filha do diretor da PIDE poder ser usada como arma de propaganda perante as centenas de delegados estrangeiros que estão prestes a chegar à Havana.
31:12
De facto, Fidel Castro decidiu não atingir o regime de Salazar. Mas vai ser durante a Tricontinental que todas as desconfianças se vão confirmar.
31:25
Annie está mesmo em Havana. Vai aparecer. E vai juntar-se à revolução.
31:55
Vive-se um momento de tensão internacional.
31:58
Os Estados Unidos aumentaram a intervenção militar no Vietnã e invadiram a República Dominicana. E depois da crise dos mísseis, Cuba tenta afirmar-se como o centro mundial do antiimperialismo.
32:21
São os primeiros dias de janeiro de 1966. E em Cuba, a tricontinental, a primeira conferência de solidariedade dos povos de África, Ásia e América Latina, vai finalmente começar.
32:44
Havana para para a realização do mega-evento.
32:52
E a confusão que se vive por aqueles dias vai dar jeito à Ani.
32:56
Que assim pode reaparecer sem dar nas vistas.
33:01
Não há nenhuma aparição bombástica. Nenhum escândalo.
33:07
Os cubanos cumprem a promessa.
33:09
A portuguesa simplesmente volta a ser avistada nas ruas da cidade.
33:16
Como se nada tivesse acontecido.
33:19
Pronta para começar uma nova vida.
33:25
como uma cubana.
33:29
A família fica em choque, recorda Madalena Nita Palhota.
33:33
Há um alívio porque a gente sabe que ela está viva, não é? É um choque para todos por causa das circunstâncias.
33:40
Ani esteve sempre em Cuba, escondida do marido e dos amigos portugueses, sem dar notícias à família.
33:47
Numa casa do regime.
33:51
Está oficialmente do lado da revolução.
33:55
Abandonou tudo para se juntar à luta de Fidel Castro e Che Guevara.
34:00
Depois de se conhecer os desfechos, logicamente ficaram zangados, eu também ficaria. Vamos lá ver a situação. Ela põe a família toda, principalmente o pai, numa situação complexa.
34:16
Portanto, é natural que estivessem zangados.
34:21
José Covas é amigo de Ani, um comunista português que viajou muito para o país em trabalho e, por isso mesmo, acredita que só por convicção seria possível trocar uma vida de mulher de diplomata pelas dificuldades do dia a dia em Cuba.
34:38
Apaixonou-se pela revolução, de facto, lá ligou o suíço, diplomata, com quem era casada, e indicou-se àquilo. E, digamos, em condições, condições não são, como deve calcular, não foi pelo dinheiro, nem pelas condições de vida.
34:55
Abraçou o projeto, apaixonou-se pelo projeto.
35:00
Annie está de tal forma integrada na sociedade cubana que passa a ter de usar senhas de racionamento para comprar bens essenciais.
35:10
Raymond fica a saber que a mulher voltou à Havana exatamente por isso.
35:16
Um diplomata suíço conta-lhe que a viu com uma senha na mão numa fila para comprar comida.
35:24
Nem sequer tenta contactá-la.
35:27
Décadas depois, em entrevista para o livro A Filha Rebelde, vai explicar porquê.
35:36
Para mim, ter uma mulher que se passou por um regime comunista era intolerável.
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Em Lisboa, o diretor da PIDE pede uma reunião com caráter de urgência.
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Está prestes a entrar no gabinete de Salazar.
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É difícil controlar os nervos.
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Costuma ir ali todas as semanas, mas sempre a propósito de assuntos que não lhe dizem diretamente respeito.
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Nunca teve de falar sobre a vida pessoal.
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Mas agora não tem alternativa.
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Como assinala o historiador Duncan Simpson, o caso tinha potencial para causar graves danos ao regime e ser facilmente utilizado pela oposição de esquerda.
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O próprio diretor da PIDE tem uma filha que parece estar completamente contra ele, contra os seus propósitos. Esta nova geração queria passar a outra coisa e estava muito mais alinhada.
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com a oposição, neste caso, comunista, do que com aquela geração passada do Fernando Silva Paz, com a qual ela rompeu com esta brutalidade um pouco chocante para a altura.
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Silva Paz conta a Salazar o que se passou em Havana com a filha.
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Não se alonguem por menores, mas deixa claro que a Ani não partilha dos valores que ele próprio defende.
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Depois...
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O que aconteceu com a passagem da sua filha para a Revolução Comunista Castrista em Cuba era suscetível de criar uma enorme crise eventualmente para o regime. Era uma coisa quase impensável. A filha do diretor da PIDE Agora ser vista com Che Guevara, com Fidel Castro e ser uma fervorosa defensora da Revolução castelhista.
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E acho que neste sentido sentiu que o seu dever era simplesmente, pelo menos, propor a sua demissão a Salazar.
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Quando houve o pedido de demissão de Silva Paes, Salazar mantém-se impassível.
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Diz-lhe para não se preocupar e pede-lhe que continue o trabalho como diretor da PIDE.
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Talvez, contrariamente ao que poderíamos pensar inicialmente, mantém a sua confiança em Silva Paes. Em 1965, é o início do momento em que Salazar está cada vez mais convicto do que o mundo ocidental está num estado de decadência moral. Parece que o Salazar vê o caso da Anne Silva Paes um pouco como um exemplo desta desorientação do mundo ocidental e da sua juventude em particular, a desorientação que neste caso faz com que ela caia nas mãos do inimigo número um, o comunismo, que Salazar vê desde os anos 30 como uma força maléfica, E parece-me até que vê o Silva Paz, de uma certa forma, quase como um pobre pai, vítima, precisamente, desta desorientação do mundo contemporâneo.
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Desorientada. É justamente assim que Fernando e Armanda Silva Pais imaginam a única filha.
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Acabada de fazer 30 anos, preste-se a ser uma mulher divorciada e a viver num país comunista. Tem de fazer alguma coisa para a salvar dela própria e das más decisões que tem vindo a tomar.
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O cargo do pai não lhe permite meter-se dentro de um avião para tentar demover a Ani.
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Mas com a mãe...
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A situação é diferente.
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Mas essa é uma história para o próximo episódio.
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No entanto, se for assinante standard ou premium do Observador, pode ouvir já todos os seis episódios. Se ainda não for, basta assinar em observador.pt barra assinar.
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No próximo episódio...
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E a sensação que eu tive quando ela ficou em Cuba foi um bocado finalmente arranjar a maneira de fugir de duas situações.
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Esses acontecimentos sucedem-se porque, obviamente, há um senhor que se chama Fidel Castro que dá autorização para isso.
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Ela teve uma relação extraconjugal com o médico do Fidel. Isso toda a gente falava.
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A sensação também que eu tive foi que ela foi muito bem trabalhada.
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Os Escândalos de Uma Revolucionária é uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador.
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É narrada por mim, Bárbara Branco, com banda sonora original de Franqui Chaves.
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O guião e as entrevistas são de Inês André Figueiredo. A sonoplastia e o desenho de som são de Pedro Oliveira.
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O design gráfico é de Miguel Fraso Cabralde.
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A edição é de João Santos Duarte e Tânia Pereirinha.
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A coordenação é de Miguel Pinheiro e Sara Antunes de Oliveira.
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Neste episódio, ouvimos sons retirados do YouTube.
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